Superando o luto e a morte com o Estoicismo

Superando o luto e a morte com o Estoicismo

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A morte e a dor do luto são elementos que perseguem o ser humano ao longo de toda a sua história e sempre estão cercados de emoções complexas e difíceis de se lidar. 

Os filósofos estoicos tinham plena consciência do sofrimento que a morte causa para a maioria das pessoas e, por essa razão, são famosos por escreverem cartas de consolação para ajudar todos que perderam entes queridos como um pai, mãe, filho ou amigo. 

A visão estoica da morte e do luto é uma visão fortalecedora e está repleta de lições valiosas que podem nos ajudar a encarar a finitude da vida de uma forma mais serena e consciente.

Neste artigo, minha missão é te apresentar como os estoicos entendiam a morte e como seus ensinamentos são capazes de aliviar o medo da morte e a dor da perda de um ente querido. 

Como os estoicos enxergavam a morte?

A morte, para os estoicos, é vista como um processo natural da vida. Tudo o que existe, em algum momento, se transforma e deixa de existir em sua forma original. Se não houvesse a morte, não seria possível haver a vida e suas transformações.

Pense comigo: a semente morre para dar origem ao broto. O broto morre para dar vida a árvore. A árvore dá frutos. Os frutos morrem ao servirem de alimento para os animais. Os animais morrem e fertilizam a terra para que novas árvores possam surgir. Como poderia existir o ciclo da vida, sem a existência da morte?

O universo, apesar de ser enorme, é dotado de uma quantidade finita de recursos e é a transformação de uns recursos em outros que permite o movimento da existência e a presença da vida. Se os bilhões ou trilhões de seres humanos que existiram antes de nós ainda estivessem vivos, muito provavelmente não existiria mais planeta Terra para suportá-los. 

Marco Aurélio tem uma passagem linda sobre a morte:

Não desprezes a morte; regozija-te com ela porquanto está também entre aquelas coisas que atendem ao desejo da natureza. De fato, a dissolução é como ser jovem, como tornar-se velho e crescer, tornar-se maduro, ter dentes, barba, cabelo grisalho, e engendrar, engravidar, conceber, e todas as demais atividades naturais trazidas pelas estações de tua vida. Isso, por conseguinte, é o que se coaduna com uma pessoa, ponderada, ou seja, com referência à morte, não ser negligente, nem impulsivo, nem desdenhoso, mas por ela aguardar como uma das atividades da natureza. Como agora aguardas o momento em que o bebê saía do útero de tua esposa, prepara-te para a hora na qual tua pequena alma vai abandonar esse invólucro” – Marco Aurélio, IX, 3

A vida é transitória. Tudo muda. Existir é dançar pelo fluxo de idas e vindas da vida. A morte é algo tão natural quanto à vida. Por isso, como diria Epicteto: “Não é a morte que nos perturba, mas aquilo que pensamos dela.”.

Mas o fato de a morte ser um evento natural da vida humana, não nos poupa de sofrer pela perda de um ente querido.

Perder um pai ou uma mãe carinhosa, um irmão que nos ajudou por toda a vida, uma tia ou avó que cuidou da gente como uma mãe, um amigo que nos fez tanto bem e até mesmo um animal de estimação querido que nos fez companhia por um bom tempo, pode ser um golpe duro, mas que pode ser suavizado com as lições deixadas pelo estoicismo. 

Como os estoicos enfrentavam o luto, ou melhor, o sofrimento causado pela morte?

Os estoicos tem plena consciência de que a perda de um ente querido causa dor e sofrimento em toda e qualquer pessoa que tenha um coração humano. Somente uma pessoa muito insensível passa incólume à perda de alguém que ama.

Olha o que Sêneca diz sobre o sofrimento causado pela morte:

“Quer dizer que agora, neste momento, estaria eu aconselhando você a ter um coração duro, desejando que você mantenha seu semblante imóvel na cerimônia fúnebre e não permitindo que sua alma sinta mesmo uma pitada de dor? De modo algum! Isso significaria insensibilidade e não virtude – participar da cerimônia de enterro daqueles próximos e queridos com a mesma expressão de quando você vê suas formas vivas e não mostrar nenhuma emoção pela primeira privação de seus familiares. Ainda assim, suponha que eu proíba você de mostrar emoção, há certos sentimentos que reivindicam seus direitos próprios. As lágrimas caem, não importa como tentemos controla-las e, sendo derramadas, aliviam a alma.” (XCIX, 15)

Podemos ver que é perfeitamente natural e compreensível sentir falta de um ente querido que se foi. 

Sofrer por conta de um ataque grave do destino como a perda de uma pessoa que amamos é compreensível e devemos dar tempo para que a dor inicial vá se esmorecendo e a vítima do ataque consiga se recompor.

No entanto, é preciso ter cuidado para não se permitir mergulhar no sofrimento, prolongando-o para além do necessário.  Isto não é natural. 

Sofra pela perda, mas fique atento para não sofrer mais do que o necessário. Olha o alerta que Sêneca faz: […] aqueles que adotam indulgência no sofrimento devem ser repreendidos imediatamente e devem saber que existe alguma insensatez, mesmo nas lágrimas.

É preciso saber seguir em frente, continuar a viver e não permitir que a perda e a dor do luto nos roube o prazer de estar vivo. 

E, para fazer isso, os estoicos tem um arsenal completo de ferramentas.

As ferramentas estoicas para superar o luto e a morte 

Estratégia 1:  Reconhecendo a naturalidade e a reciprocidade da morte. Nós também somos mortais

A primeira ferramenta capaz de amenizar a dor do luto é entender que a morte é algo natural. A pessoa que amamos nos deixou e nós também iremos deixar essa vida em algum momento.

Ninguém é capaz de evitar o fim certo da morte.

Entender que a pessoa que você ama se foi, que essa ida é um processo natural e que, em pouco tempo, você também terá ido é uma ferramenta poderosa para acalmar o nosso coração.

Talvez te ajude a encarar a morte com mais naturalidade ao pensar na imensidão do universo. Marco Aurélio, ao refletir sobre o tema, escreveu em seu diário:

Quão minúscula é a porção do tempo ilimitado e infinito que foi destinada a cada um de nós! Com efeito, com suma celeridade se desvanecerá na eternidade. Que porção irrisória da substância do universo! Que porção insignificante da alma do universo! Para qual minúsculo torrão de terra te moves penosamente? Em meio a essa reflexão, firma-te na ideia de que nada tem grande importância, exceto se agires como orienta a natureza e suportares o que a natureza comum te traz” – Marco Aurélio, Meditações, cap. XII, § 32

Contemple, do alto, os rebanhos humanos que não têm fim, rituais sem fim, incessantes viagens, na tempestade e na calmaria, veja os diversos seres nascendo, convivendo, morrendo. Imagina também a vida que outros viveram no passado, a que se viverá depois de ti, e a que se vive agora nos países bárbaros; quantos sequer sabem o teu nome; quantos logo o esquecerão, quantos ora te louvam, e em breve te censurarão. A fama nada vale, nem a glória, nem o que sobra disso tudo” – Marco Aurélio, Meditações, IX-30

O universo existe há mais de 8 bilhões de anos e continuará existindo por mais de 130 bilhões. O que significa, em um cosmos deste tamanho, a brevidade de uma vida humana? 

Quem você ama se foi. Logo, será a sua vez.

Acalme o seu coração e viva sereno o tempo que te resta de vida.

Estratégia 2: A morte como libertação do sofrimento

A morte, em muitos momentos, é uma libertação do sofrimento.

É claro que gostaríamos de conviver o máximo de tempo possível com as pessoas que amamos, mas será que isso não seria um pedido duro demais para elas?

A minha mãe, por exemplo, sofre muito com o Alzheimer e a fibromialgia e eu consegui aceitar as doenças e entender que a passagem dela para o outro lado será uma libertação desse sofrimento que ela sente. 

Reflita sobre isso. Muitas vezes, nós sofremos pela perda de um ente querido, mas a pessoa que se foi está feliz de ter ido, pois finalmente pode encontrar paz. 

Estratégia 3: A diferença entre Propriedade e Posse – desapego consciente

Na vida, somente somos proprietários de nossas ações e de nossa consciência. De todo o resto, somos apenas possuidores.

O seu carro, a sua casa, o seu patrimônio um dia serão de outra pessoa. A sua aparência, se você tiver sorte e envelhecer, um dia irá decair. Nem do seu próprio corpo, você é dono, pois a sua vida um dia irá findar. Agora, imagina, que insensatez, querer ser dono das pessoas que amamos. Isso não é possível.

Você não tem o direito a nada na vida. Tudo o que o destino te concedeu, lhe foi dado por empréstimo e pode ser resgatado a qualquer momento, inclusive sem comunicação prévia.

Por isso, pare de olhar para as coisas como se fossem suas, pare de acreditar que sempre terá o dia seguinte para aproveitar com seu filho, que sempre terá outra oportunidade de dizer um eu te amo para seus pais, de visitar aquela praia que sempre sonhou ou de fazer qualquer outra coisa. A vida não funciona assim.

Desapegue-se que quem se foi. Tenha consciência de que ele nunca foi seu. 

Como disse Epiteto: “Ao dar um beijo de boa noite em seu filho ou na sua esposa, sussurre para si mesmo: ele pode estar morto amanhã.”. Ou seja, aproveite quem você ama com todas as suas forças, mas aprenda a aceitar que eles são mortais e que você somente os terá por um curto espaço de tempo.

Estratégia 4: Vamos ser gratos pelo tempo que tivemos junto com as pessoas que amamos

A nossa saúde mental toma a forma dos nossos pensamentos. Ou seja, a forma como avaliamos e valoramos às situações tem um impacto gigantesco na qualidade das emoções que experimentamos.

Marco Aurélio costumava dizer que:

“O que você pensa determina a qualidade da sua mente. Sua alma é tingida pela cor dos seus pensamentos.”

Na mesma linha, Epiteto ensinava a seus alunos que: “Toda situação que enfrentamos tem duas alavancas, uma que nos permite suportá-las e outra que as tornam insuportáveis.“.

Agora, é a sua vez de ser testado pela vida. Chegou a sua hora de escolher como irá suportar a perda da pessoa que tanto ama. 

Você pode escolher sofrer, se revoltar, se culpar e enfatizar como ela faz falta e como a sua vida se tornou miserável sem ela.

Ou você pode escolher focar em ser grato por ter conhecido a pessoa, por ter tido o tempo de convívio que teve com ela, por ter amado e por ter vivido uma parte de sua existência ao lado dela.

Uma coisa eu te falo: se a pessoa que partiu te amava de verdade, o que ela mais vai querer é que você siga em frente com a sua vida. Ela não vai querer que você fique sofrendo por sua morte e paralise a sua vida por isso. Se ela te amava de verdade, ela vai querer a sua felicidade, sempre.

Estratégia 5: Usar o tempo de maneira significativa

Quando se perde um ente querido, é comum ficarmos relembrando memórias, situações e revivendo o sentimento de perda. Isso não é saudável.

Ao invés de ficar preso ao passado e ao que aconteceu, que tal você começar a se movimentar para o usar o seu tempo de vida de maneira significativa.

Ok, é duro: a pessoa que você ama se foi, mas enquanto você ainda não partiu , o que você pode fazer para honrar a memória da pessoa que tanto te fez bem.

Você perdeu a sua esposa, isto é muito triste, mas que tal você focar em cuidar dos seus filhos e usar o seu tempo de uma maneira significativa, honrando a memória dela por meio deles. Ou você perdeu um filho para o alcoolismo ou em um acidente de carro, que tal você começar a se juntar com outras pessoas vítimas de perdas similares para fazerem um trabalho de conscientização sobre os perigos do álcool e da direção perigosa.

Encontrar uma forma de manter viva lembranças positivas das pessoas que se foram utilizando o nosso tempo de maneira significativa é uma forma incrível de extrair algo positivo do luto.

Estratégia 6: Amor fati ou aceitando o imutável

Toda pessoa que quer entender como superar o luto acaba encontrando um modelo conhecido criado por Elisabeth Kubler-Ross que descreve às 5 fases do luto.

Segundo ela, toda pessoa que estiver passando pelo luto irá atravessar essas 5 fases que podem ocorrer de forma consecutiva ou não e que podem coexistir ou ocorrerem uma por vez. 

As 5 fases são:

1) Negação: aqui, o indivíduo nega a perda da pessoa querida. Acha que foi um engado ou que não foi real. Normalmente, ocorre logo após receber a notícia da morte.

2) Raiva: em um segundo momento, há um sentimento de revolta ou raiva. A pessoa busca culpar alguém ou algo pela perda da pessoa que ama. É comum também a pessoa ficar agressiva nessa fase.

3) Negociação/Barganha: nesta fase, a pessoa tenta negociar com Deus ou outras figuras divinas ou reais buscando evitar a perda da pessoa amada.

4) Depressão: é nesta fase que a tristeza intensa se instala. A pessoa passa a se isolar, refletir sobre a vida, começa a refletir sobre seus sentimentos e começa a trilhar um caminho para a aceitação.

5) Aceitação: chegamos à última fase. Isso não indica que a pessoa tenha parado de sofrer, até mesmo porque muitas vezes a dor da perda nunca vai embora por completo.  mas sim que ela foi capaz de aceitar a perda como fato, acalmar seus sentimentos e está começando a dar sinais de que está seguindo em frente. 

Penso, contudo, que um estoico não iria passar por todas essas fases, mas iria buscar ir direto para a fase da aceitação por conta de um conceito chamado de amor fati.

Segundo Epiteto:

“Nossa principal tarefa na vida é simplesmente isso: identificar e separar os assuntos que estão sobre o nosso poder daqueles que não temos escolha, senão aceitar.”

Podemos encontrar uma recomendação similar na Oração da Serenidade de Reinhold Niebuhr:

“Deus, 

Conceda-me a serenidade

Para aceitar aquilo que não posso mudar,

A coragem para mudar o que me for possível

E a sabedoria para discernir entre as duas.”

Os estoicos tem plena consciência de que existem coisas na vida que podemos alterar e existem coisas que escapam completamente a capacidade humana de modificar. A essa capacidade de aceitar as ações imutáveis do destino com serenidade, os estoicos chamam de amor fatti.

E a morte é uma dessas situações que só nos resta aceitar. Não existe meio hábil para ressuscitar uma pessoa que morreu e já se foi, por mais que a amemos. 

Se revoltar contra a morte, lutar contra ela, reclamar, resmungar, gritar, bater somente irá acrescentar mais camadas de sofrimento a algo que já é extremamente doloroso.

Por isso, aceitar a morte como algo natural e seguir em frente é a atitude mais sábia que podemos adotar.

Eu espero, do fundo do meu coração, que você consiga encontrar conforto com essas palavras.

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