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Um dos conceitos mais impactantes e transformadores da filosofia estoica é a ideia da dicotomia do controle. Esse conceito, central dentro do estoicismo e especialmente na filosofia de Epiteto, vai te ajudar a lidar muito melhor com seus relacionamentos, com a morte, com a derrota, com seus filhos, com seu chefe no trabalho.
Resumindo: esse é um conceito que tem aplicação vastíssima e vai conseguir te trazer muita serenidade, muita tranquilidade diante dos problemas que a vida vai jogar diante de você.
Ao longo do post, vou te explicar a ideia da dicotomia do controle para, num segundo momento, te mostrar formas de aplicar esse conceito dentro de situações vivenciadas por todos nós, no dia a dia.
Os filósofos estoicos, de maneira muito inteligente, perceberam que, no mundo, existem eventos e situações que temos o poder de controlar ou, no mínimo, influenciar e existem situações que não temos controle algum.
Nas palavras de Epicteto:
“Algumas coisas estão ao nosso controle, enquanto outras não. Estão sob nosso poder a opinião, a motivação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é de nossa autoria; não estão sob nosso poder o corpo, a propriedade, a reputação, o cargo e, resumidamente, tudo o que não é de nossa autoria.”
Deixa eu dar um exemplo para facilitar o entendimento: imagine que você chamou todos os seus amigos para curtir um belo dia de sol na praia, MAS, ao chegar lá, o tempo fechou e caiu a maior chuva, “estragando” o passeio.
Daí eu te pergunto: você controla o clima do local onde você mora? Com certeza não. E assim como você não controla o clima, você não controla as doenças que terá, não controla sua cor de pele, sua altura, sua inteligência, o seu sexo de nascimento e mais um caminhão de outras questões.
OK, eu entendo que não controlo tudo o que acontece comigo, mas como eu devo agir, então, diante da vida. Devo agir como um peso de papel? Já que não consigo controlar esses eventos, eu devo agir de forma passiva e não fazer nada em relação a eles?
Claro que não. O estoicismo é uma filosofia prática, ativa.
Apesar de você não controlar o clima, sua saúde e mais um monte de outras situações, existem muitas ações que você pode adotar para transformar a sua forma de lidar com a vida e seus desafios.
No exemplo simples da chuva, você poderia, por exemplo, ter pesquisado o clima para marcar o passeio em um dia com baixa probabilidade de chuva ou poderia ter pensado em um plano b, um outro passeio para fazer com seus amigos, caso chovesse.
Resumindo: o fato de você não poder mudar vários aspectos da sua vida não significa que você não tenha o que fazer para melhorar sua qualidade de vida. Sempre haverá espaço para ações positivas, seja externamente, seja internamente.
Nossa missão na vida, segundo a filosofia estoica, está bem retratada na Oração da Serenidade de Reinhold Niebuhr:
Deus,
Conceda-me a serenidade
Para aceitar aquilo que não posso mudar,
A coragem para mudar o que me for possível
E a sabedoria para discernir entre as duas.
Vivendo um dia de cada vez,
Apreciando um momento de cada vez,
Recebendo as dificuldades como um caminho para a paz,
Aceitando este mundo cheio de pecados como ele é, assim como fez Jesus, e não como gostaria que ele fosse;
Confiando que o Senhor fará tudo dar certo
Se eu me entregar à Sua vontade;
Pois assim poderei ser razoavelmente feliz nesta vida
E supremamente feliz ao Seu lado na eternidade.
O grande x da questão é ter em mente que existem 3 categorias distintas de situações e que, para cada uma delas, devemos responder de uma forma diferente.
Os dois primeiros grupos de situações são analisadas com base em um perspectiva externa, isto é, são situações em que analisamos o que podemos fazer para alterar o mundo à nossa volta, para transformar a nossa realidade. O último grupo está baseado em uma perspectiva interna, ou seja, como podemos mudar nossas crenças, nossos valores, nossos mindsets, nossa forma de lidar com a vida e com os eventos à nossa volta para que possamos manter nossa serenidade diante da vida.
Eu costumo brincar que o ser humano é muito prepotente e gosta de acreditar que é Deus. Nós vivemos num tempo em que nos vendem que podemos tudo, que se tivermos garra suficiente, o coach certo, a determinação adequada podemos conquistar o que quisermos, mas isso não é verdade.
Ninguém tem o poder de dominar e dobrar a realidade frente a todas as suas vontades.
Isso fica muito claro diante de situações limites que nos colocam frente a desafios intransponíveis como, por exemplo: a perda de um ente querido, a descoberta de uma doença incurável, a reprovação em um vestibular ou a derrota do nosso time do coração.
Quando somos colocados diante de um desafio como esse, os estoicos nos ensinam que devemos aprender a aceitar esses acontecimentos com naturalidade. O termo utilizado é amor fati ou amor ao destino.
Tudo o que acontece conosco é um evento natural, um evento passível de acontecer com qualquer outro ser humano vivo. Qualquer pessoa viva corre o risco de perder um ente querido ou de descobrir uma doença grave. Porque você se assusta ou se revolta com uma situação dessas, se você ,desde o nascimento, tem ciência de que essas situações fazem parte da condição humana?
Ficar irritado, nervoso, chateado, estressado ou triste com um evento desses somente irá acrescentar uma camada de sofrimento extra à sua vida.
Ao invés de desperdiçar nossa energia com todo um desgaste emocional desnecessário ou com tentativas inúteis de alterar o que não se pode mudar, muito melhor seria focar a nossa energia em ações que estão sob o nosso poder de controle ou influência.
Por exemplo, ao invés de entrar em depressão com a descoberta de uma doença grave seria muito mais sábio você focar sua energia em seguir o tratamento à risca, em melhorar a sua qualidade de vida, em aproveitar de forma construtiva o tempo de vida que te resta.
O segundo grupo é formado por situações que não temos um controle total sobre os acontecimentos, mas nossa ação tem o poder de mudar o resultado dos eventos.
Por exemplo, imagine que você seja um jogador de futebol e que irá participar de uma competição em breve. Nesse cenário, você tem controle sobre o resultado da partida? Não.
Por outro lado, você tem o poder de influenciar o jogo aumentando suas chances de vitória? Com certeza. Se você executar o treinamento com disciplina, seguir a dieta, praticar as jogadas definidas pelo técnico, você irá aumentar em muito a sua chance de sucesso. Ainda que isso não dependa exclusivamente de você.
Cícero, comentando um exemplo utilizado por Catão, um grande filósofo estoico, apresenta um exemplo que explica bem a questão:
“Pegue, por exemplo, o caso de uma pessoa cuja tarefa seja atirar a lança ou uma flecha em cheio num determinado alvo. O arqueiro pode fazer tudo o que está em seu poder para acertar o alvo, mas, ainda assim, pode errar. No entanto, o máximo que se pode exigir do arqueiro é que ele atire com excelência. Acertar o alvo, já não depende exclusivamente dele.”
O exemplo citado por Cícero nos ensina que, na vida, devemos dar o nosso melhor na direção do que queremos e somente podemos exigir isso de nós.
Não faz sentido exigir que o resultado aconteça porque o resultado não depende exclusivamente de nós, ele depende de milhares, as vezes, até de milhões de outras variáveis. No caso do arqueiro, um vento pode mudar a direção da flecha, o animal pode andar, um outro animal pode passar na frente da flecha e pode acontecer mais um monte de outros imprevistos.
Sêneca, nos lembra, que nós nunca controlamos os eventos externos, nós apenas os influenciamos. Isso, porque, além da nossa ação, existem milhões de outras variáveis que podem influenciar o resultado de nossas empreitadas.
Por isso, ele sempre utilizada um conceito chamado de cláusula de reserva.
A cláusula de reserva sugere que sempre coloquemos, na frente de nossas ações e desejos que vamos conquistá-lo se o destino permitir, se a Fortuna ajudar ou se Deus quiser. A cláusula de reserva nos prepara mentalmente para a possibilidade de insucesso e isso acaba gerando dois benefícios.
O primeiro é que ela nos ajuda a planejar melhor nossas ações, a nos preparar melhor para os desafios porque temos consciência de que pode dar errado. O segundo benefício é que a cláusula de reserva reduz a nossa frustração caso dê errado, pois sabemos que nem sempre conquistamos o que queremos, ainda que estejamos dando o nosso melhor.
Diferente dos dois grupos anteriores que se relacionam à nossa capacidade ou incapacidade de transformar eventos externos, que estão fora de nós, no mundo real, o terceiro grupo é interno. Ele está ligado a forma como nos relacionamos com os eventos que acontecem dentro de nós, diálogos que acontecem na nossa mente, dentro da nossa cabeça.
Explicando melhor, o terceiro grupo está ligado a forma como percebemos os eventos externos, como julgamos, interpretamos e classificamos as situações e os acontecimentos.
O exemplo a seguir pode te ajudar a entender melhor o cerne da questão.
Imagine duas pessoas que estão indo trabalhar, cada uma em seu carro e, em um entroncamento, uma acaba raspando o seu carro no carro da outra.
A primeira pessoa, ainda dentro do carro, começa a conversar consigo mesma falando que o evento é um tragédia, que ela vai se atrasar muito para o trabalho, que está completamente quebrada e não terá dinheiro para consertar o carro, que o outro motorista é um barbeiro, que odeia dirigir, enfim, que todo o dia acontece uma bosta para estragar a sua vida.
A segunda pessoa, também dentro do carro, começa a conversar consigo mesma falando que não foi nada, foi só um arranhão no carro que quase não dá pra ver, que é assim mesmo, às vezes o carro arranha, nada de mais. O importante é que ninguém se machucou. Ela está feliz que a batida gerou somente um arranhão na pintura, pois podia ter sido bem pior.
Deixa eu te perguntar uma coisa: qual das duas pessoas você acha que irá sair mais estressada, nervosa e infeliz dessa situação? Com certeza a primeira pessoa.
O que os estoicos nos ensinam é que nós temos o poder mudar a forma como interpretamos, classificamos e julgamentos os acontecimentos, dentro da nossa cabeça, e só essa mudança de perspectiva já é capaz de transformar completamente o que sentimos.
Ninguém e nenhum evento externo tem poder sobre seus sentimentos, seus julgamentos sim e você tem o poder de alterá-los. Não abra mão desse super poder delegando ele para pessoas e eventos externos.
É por isso que Epiteto diz que nós temos o potencial de transformar a forma como enxergamos tudo o que acontece conosco. Ele diz que nós temos o potencial porque, verdade seja dita, nem sempre é fácil mudar o nosso julgamento sobre determinado evento, mas isso é possível e fica cada vez mais fácil a medida em que praticamos.
Nas palavras do mestre:
“Não são os eventos externos que perturbam as pessoas, mas a forma como elas o julgam.”
Quando aplicamos a dicotomia do controle, devemos buscar diferenciar o que está no nosso controle do que está fora do nosso controle e a partir daí, buscarmos uma linha de ação e uma ressignificação para o que sentimos.
No caso de uma traição, eu te pergunto: você controla como o seu parceiro ou parceira vai agir? Você controla o que ele vai sentir em relação a outras pessoas? Você controla o que os outros podem sentir por ele ou ela? Com certeza não.
O que você controla: você controla a forma como você age dentro do relacionamento, buscando ser uma pessoa correta e parceira, você controla com quem você vai se relacionar e principalmente você controla como irá reagir caso a pessoa descumpra os compromissos firmados dentro do relacionamento.
Eu até entendo a raiva, a tristeza, a frustração quando se é vítima de uma traição, mas ficar com raiva, se vingar, gritar, brigar não vai ser útil em nada para quem foi vítima da traição. Isso não irá reestabelecer sua saúde mental.
Sabe o que vai ser útil: transformar a forma como você está julgando a traição. Ao invés de julgar como uma tragédia, veja como uma mensagem da vida te falando para não se relacionar com essa pessoa que não cumpre o que promete, que desrespeita os outros, que não valoriza compromissos firmados.
Sabe o que vai ser mais útil ainda: você trabalhar a forma como você interpreta e julga o fim de um relacionamento. Entender o fim de um relacionamento como o fim de um ciclo, não como o fim da vida é fundamental. Entender que a vida continua, que a vida segue e que isso é um dos fins naturais possíveis para um relacionamento te torna forte o suficiente para superar o fim sem se quebrar emocionalmente.
É incrível a capacidade do ser humano de ser criativo, inventivo e de transformar a realidade, mas se tem algo que ainda não conseguimos fazer é prender o coração de alguém ao nosso.
Novamente, aqui, devemos analisar a situação pela ótica da dicotomia do controle. Daí eu te pergunto: o que você controla em um potencial relacionamento? Você controla como você se arruma para estar o mais bonito possível, você controla o que você fala com a pessoa, como você se comporta, em resumo: você controla seus comportamentos e atitudes.
O que você não controla: como a pessoa irá reagir e o que ela irá sentir em relação à você. Você pode trabalhar para se tornar o mais amável possível, mas isso não irá garantir que a pessoa irá se apaixonar por você.
Entender isso é capaz de te deixar tranquilo. Você fez tudo o que estava no seu poder para conquistar quem você ama, você deu o seu melhor. Se não deu certo, faz parte da vida. Você não controla o outro.
E tem um detalhe importante nesse contexto: você quer mesmo construir um relacionamento com uma pessoa que não se vinculou emocionalmente à você mesmo depois de você ter se esforçado tanto para conquistá-la? Como você acha que esse relacionamento será no futuro?
Muito provavelmente ruim e desgastante para você. Não seria bem mais inteligente, esquecer essa pessoa que te deu um fora e se abrir para conhecer novas pessoas. O mundo tem mais de 7 bilhões de pessoas, porque restringir sua vida a uma única pessoa que não te quer?
Uma das coisas mais importantes que o estoicismo pode te ensinar é ser humilde em relação à vida. Nada do que você tem contato, durante o seu dia a dia, é seu.
Em algum momento, ao longo da sua vida ou, no melhor dos cenários, na hora da morte, tudo o que hoje é seu deixará de te pertencer: carro, dinheiro, fama, beleza, poder, filhos, esposa, marido e até mesmo o seu próprio corpo.
Por isso, viver no presente, aproveitando ao máximo cada instante é uma ação muito sábia e estimulada pela filosofia.
Os estoicos encaram a morte como um fenômeno natural da vida, assim como o nascimento. Para eles, a morte nada mais é do que um processo natural da matéria.
Eles tem total consciência de que é a transformação dos elementos em razão do ciclo de nascimento e morte que permite a evolução do universo. Como seria possível uma borboleta existir, se não houvesse a morte da lagarta? E como a terra poderia ser adubada para o surgimento de novas árvores, sem a extinção de inúmeros animais para fertilizá-la?
Por isso, um estoico, ao lidar com a perda de um ente querido, num primeiro momento, busca trabalhar a aceitação da morte. Obviamente, ele sabe que não é capaz de ressuscitar a pessoa que se foi, por isso, lutar contra essa situação seria tolice.
Em um segundo momento, ele busca trabalhar internamente a forma como ele está valorando essa perda porque ele sabe que a forma como ele julga a situação pode torná-la insuportável ou muito mais leve.
Aceitar a morte como algo natural, lembrando que ela também te levará um dia e focar suas energias em agradecer o tempo que você teve disponível para conviver com aquela pessoa que você tanto amou é uma forma muito mais sábia de passar pelo luto, do que ficar lutando contra a perda e sofrendo por algo irreversível.
Os estoicos colocam uma cláusula de reserva em todas as suas ações, porque eles tem consciência de que, por mais que se esforcem, nem sempre suas ações irão dar certo.
Mas o que seria essa cláusula de reserva? A cláusula de reserva pode ser sintetizada por expressões como “farei xyz, se o destino permitir ou se Deus quiser ou se nada me impedir“.
Ao ter consciência de que suas ações podem dar errado desde o princípio, você minimiza o choque por conta de eventual derrota. Além disso, você reconhece que existem centenas, às vezes milhares, de variáveis que podem influenciar o resultado de seus projetos.
Por isso, o que podemos fazer é dar o nosso melhor no que está sobre o nosso controle e aceitar o resultado que vier. Trazendo para termos mais presentes: devemos focar no processo e esquecer os resultados.
E se você, por algum motivo perder, aceite a derrota com serenidade e volte a trabalhar para superá-la.
Você fez tudo o que estava ao seu alcance para ganhar, mas não deu certo? O que mais você poderia ter feito? Nada. Você não é Deus, você não comanda o universo e tudo o que acontece nele. Quando muito, você tem um bom controle sobre suas ações.
Se você perder, aceite a derrota com serenidade e volte a praticar, volte a focar no que está sobre o seu controle, que é se preparar para novas batalhas.
Como você percebeu, a dicotomia do controle é uma das ferramentas estoicas com maior aplicabilidade. Você pode utilizar a dicotomia para melhorar a forma como você lida com praticamente qualquer emoção negativa.
A dicotomia do controle pode te ajudar a lidar melhor com a ansiedade, com o estresse, com a depressão, com a raiva, com o medo, com a insegurança e com mais um caminhão de outras emoções negativa.
Mas a dicotomia do controle é apenas uma dentre as mais de 10 ferramentas disponíveis no arsenal estoico para você virar um GÊNIO da INTELIGÊNCIA EMOCIONAL.
ATENÇÃO! Se você quer se aprofundar no estoicismo e aprender como aplicar essa filosofia na sua vida, confira o meu curso que te transformará em um GÊNIO DA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL no link abaixo:
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